sábado, 12 de setembro de 2009

Comissão de frente do carnaval 2009 - uma estranha história.



A comissão de frente do Império Serrano em 2009 estava impecável, bonita, criativa e totalmente inserida no enredo. Estranhamente os jurados não tiveram a mesma opinião do público e crítica especializada, tirando décimos decisivos para o resultado final da apuração.
G.R.E.S. Império Serrano.
Apuração do Carnaval 2009 - Quesito Comissão de frente.
Primeiro jurado= 9.8 - Segundo jurado= 9.9
Terceiro jurado= 9.7 - Quarto jurado= 9.8
Total= 39.2 - Perda de 0,8 pontos, simplesmente a diferença em relação a penúltima escola, Mocidade Independente de Padre Miguel.



Avaliando as apurações dos Carnavais da era LIESA, seus julgadores adoram dar notas maiores para quase todas as agremiações nos quesitos técnicos como bateria e samba-enredo, e desequilibram a apuração sendo bem mais rigorosos em quesitos que dependem um pouco mais de "grana", como alegorias e adereços e fantasia. O quesito comissão de frente parece seguir um roteiro baseado no ranking da LIESA, separando as agremiações em grupos distintos, com notas distintas, muito curioso.

Vejam o vídeo dos preparativos da comissão de frente do Império Serrano na concentração da Marques de Sapucaí para o desfile de 2009. Tirar 0,8 pontos, que falta de sensibilidade carnavalesca:



Presto aqui nossa homenagem a toda Comissão de frente imperiana, nota dez em nossos corações e mentes!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Recordar é viver - Bateria Imperiana em 1968.



A mais premiada de todas as baterias das Escolas de Samba merece homenagens constantes, e faço aqui mais uma homenagem, postando uma foto de nossa bateria durante o desfile no Carnaval de 1968, em que o Império Serrano desfilou com o saudoso enredo "Pernambuco, Leão do Norte".

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Preciosidade - Entrevista com Sebastião Molequinho.

Saudações imperianas! Garimpando pela internet descobri uma entrevista feita pela TV Globo com Sebastião Molequinho, fundador da G.R.E.S. Império Serrano. Certamente é um vídeo de grande importância histórica.
Melhor do que falar é curtir esta preciosidade:

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Velha Guarda do Império Serrano.


A Velha Guarda é sempre um dos maiores patrimônios das Escolas de Samba.
E falando de Império Serrano, sua Velha Guarda tornou-se patrimônio do próprio Carnaval do Brasil.

Bandeira da Velha Guarda da G.R.E.S. Império Serrano:


Alguns nomes de destaque da atual Velha Guarda do Império: Toninho Fuleiro, Fabrício, Aloísio Machado, Capoeira da Cuíca, Silvio, Lindomar, Balbina, Nina, Zé Luis, Ivan Milanês, Wilson das Neves, Cizinho, entre outros...

Entre todas as músicas que já ouvi a Velha Guarda cantar, minhas preferidas são "Império tocou reunir" de Silas de Oliveira e Dona Ivone Lara, e "Menino de 47" de Nilton Campolino e Molequinho.


Quem desejar conhecer melhor o belo trabalho da "moçada", minha sugestão é o CD "Império Serrano, um show de Velha Guarda", do selo Biscoito Fino. Veja a capa do CD:

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O Planeta Terra canta "Império Serrano".

Os Sambas de Enredo imperianos são tão maravilhosos, que são executados em todos os cantos do mundo. Um belo exemplo está no vídeo abaixo, uma performance do Grupo Zabumba, em pleno festival musical na França, no ano de 2007. Detalhe, a maioria dos componentes do grupo não têm a nacionalidade brasileira. O samba escolhido foi "Brasil, berço dos imigrantes", de Jorge Lucas e Roberto Ribeiro, nosso hino no Carnaval de 1977. Detalhe, atualmente, na era LIESA, as composições são tão medíocres, que não sabemos cantar a maioria dos sambas dos últimos três anos. Quando o samba tem a "grife" imperiana é diferente, simplesmente 30 anos depois, franceses cantam "Brasil, berço dos imigrantes" de ponta a ponta, e com um delicioso sotaque gringo no fundo.

"BRASIL, BERÇO DOS IMIGRANTES". (Letra).

É tempo de Carnaval
Hoje as cores do Império
Vem saudar a imigração
Numa dourada alegria
Neste dia de folia
O samba é anfitrião
Desta gente que ao chegar
Semeou nesta terra
Seu folclore popular
Brasil, berço dos imigrantes
Sua raça é mistura
Sem cessar
O povo com seu sorriso
Vem pra avenida festejar
Violas de pássaros
Clarins de vento (bis)
O Arlequim
Entoando um canto lento
Num céu de serpentinas
Um Pierrô vai desfilar
O dominó ganhou confete
E ao imigrante foi saudar
Olha o passo da mulata
Esplendor da Colombina
Canta e samba minha gente
Nesta festa que domina (bis)
Lá, lá, laiá
Lá, laiá, laiá
Lá, laiá, lá, laia (bis)


Curtam esta bela curiosidade:

terça-feira, 4 de agosto de 2009

HEROÍS DA LIBERDADE - O Melhor Samba-Enredo de todos os tempos.



Jornal O Globo - Carnaval de 2003.
O melhor samba-enredo de todos os tempos é...
Reportagem de Bernardo Araujo, Daniela Name e João Pimentel.

Deu Silas de Oliveira na cabeça: o melhor samba-enredo de todos os tempos é “Heróis da liberdade”, dele com Mano Décio da Viola e Manoel Ferreira, que o Império Serrano levou para a avenida em 1969. O primeiro lugar em um universo de centenas de sambas foi dado ao hino alviverde por 10 das 70 pessoas ouvidas pelo GLOBO, em uma enquete que ainda elegeu “Agudás, os que levaram a África no coração e trouxeram para o coração da África o Brasil!”, da Unidos da Tijuca, o melhor samba de 2003, seguido de perto por “Os dez mandamentos: o samba da paz canta a saga da liberdade”, da Mangueira. Na eleição dos melhores de todos os tempos, o vice-campeonato ficou com “Os sertões”, da Em Cima da Hora, de 1976 (de autoria de Edeor de Paula), e a medalha de bronze com “Aquarela Brasileira”, também do Império Serrano e de Silas de Oliveira. Dos cinco primeiros colocados na enquete, três foram do compositor imperiano — “Cinco bailes tradicionais na História do Rio”, de 1965, que ele fez com Dona Ivone Lara e Bacalhau, foi o quarto colocado, ao lado de “O mundo encantado de Monteiro Lobato”, da Mangueira em 1967.

Nem todos os 70 eleitores ouvidos na enquete conheciam os sambas de 2003 o suficiente para ter um favorito. No entanto, a crença radical de que nada presta nas composições recentes já não é tão forte quanto se poderia supor. É claro que alguns embarcam no bloco do “não ouvi e não gostei”, como o compositor Nei Lopes e o roqueiro Guilherme Isnard. No entanto, veteranos conhecedores do mundo das escolas como Sérgio Cabral, Fernando Pamplona e Haroldo Costa ouviram o disco de 2003 com atenção e têm suas opiniões: — Gosto do samba do Salgueiro, pela originalidade — diz Cabral, nascido em Cavalcante e torcedor (e ex-enredo) da Em Cima da Hora.

A escolha de um único samba-enredo em mais de mil foi ingrata para a maioria das pessoas, que insistia em votar em dois ou três. — Essa escolha é fogo! — reclamou, bem-humorado, o escritor Haroldo Costa, que acaba de lançar “Salgueiro — 50 anos de glória”, sobre sua escola do coração, que vai justamente contar esse meio século de história em seu desfile, hoje à noite. — Há vários sambas antológicos, inesquecíveis. Voto em “Chica da Silva”, do Salgueiro, que, além de bonito, é um samba que marcou época, na minha opinião.

A pesquisadora e escritora Rachel Valença justifica seu voto no “Cinco bailes”, do Império, com o academicismo adequado: — É um samba que obedece rigorosamente à estrutura da epopéia — diz ela. — Intuitivamente, Dona Ivone, Silas de Oliveira e Bacalhau compuseram o mais clássico dos sambas-enredo.

LETRA DA ANTOLOGIA.
Heróis da Liberdade (Silas de Oliveira / Mano Décio da Viola / Manoel Ferreira).

Passava noite, vinha dia
O sangue do negro corria
Dia a dia
De lamento em lamento
De agonia em agonia
Ele pedia o fim da tirania
Lá em Vila Rica
Junto ao largo da Bica
Local da opressão
A fiel maçonaria, com sabedoria
Deu sua decisão
Com flores e alegria
Veio a abolição
A independência
Laureando o seu brasão
Ao longe soldados e tambores
Alunos e professores
Acompanhados de clarim
Cantavam assim
Já raiou a liberdade
A liberdade já raiou
Essa brisa que a juventude afaga
Essa chama
Que o ódio não apaga pelo universo
É a evolução em sua legítima razão
Samba, ó samba
Tem a sua primazia
Em gozar de felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos heróis da liberdade
Ô, ô, ô, ô Liberdade senhor!

Muitos cantores e cantoras, dentre eles Martinho da Vila e João Bosco, gravaram "Heróis da Liberdade". Como tal mãe, tal filha, depois de ouvir Elis Regina cantando "Alô, Alô, Taí Carmen Miranda", que tal ouvir "Heróis da Liberdade" com Maria Rita:

sábado, 25 de julho de 2009

Império Serrano, Carmen Miranda e Elis Regina, arte pura!

As outras Escolas de Samba podem chiar e morrer de inveja, pois quando se fala em Samba de Enredo, se traduz Império Serrano. Não é coisa de torcedor, é simplesmente a realidade histórica do Carnaval Carioca.
Um bom exemplo é o nosso samba de 1972, que nem está entre os nossos melhores de todos os tempos.“Alô, Alô, Taí Carmem Miranda”, samba que levou o Império Serrano ao seu oitavo título do desfile das grandes Escolas de Samba do Rio de Janeiro, uma poesia melódica na maravilhosa voz de Elis Regina.
Curta esta obra de arte musical.

sábado, 18 de julho de 2009

Mano Décio da Viola - Centenário de nascimento.



Um dos personagens mais importantes dos primeiros anos do Império Serrano e das próprias escolas de samba, compositor que formatou o samba enredo e criou clássicos como "Heróis da liberdade" e "Exaltação à Tiradentes", Mano Décio da Viola completaria um século de vida na terça passada. Parceiro e, por vezes, adversário de Silas de Oliveira - considerado o grande mestre do estilo e de quem, de certa forma e injustamente, viveu à sombra - ele terá obra e vida lembradas na tradicional feijoada da Império Serrano este sábado, em Madureira; em um debate seguido de um show de Jorginho do Império, seu filho, na segunda, dia 20, na Associação Brasileira de Imprensa (ABI); e em um CD, gravado pelo próprio Jorginho, a ser lançado ainda este ano.



- O Mano Décio foi quem sistematizou a narrativa do samba enredo, que até então, nos anos 1940, era disperso, não narrativo. Os sambas eram evocativos de temas como o amor, a musa. E ele foi o pioneiro com o "Exaltação a Tiradentes", em 1949 - conta o pesquisador Ricardo Cravo Albin, que conheceu o sambista quando presidia o Museu da Imagem e do Som. - Ele foi fundamental no esboço que fizemos, em 1967, de um futuro Museu do Carnaval. Tinha um lado voltado para a pesquisa, para importância de se preservar a história.
Para ele, que integrará, juntamente com Sergio Cabral, Haroldo Costa e Rachel Valença a mesa do dia 20, na ABI, a obra de Mano Décio merecia um destaque maior.
- Numa reunião para o evento, o (jornalista) Maurício Azedo cantou alguns sambas dele que eu mesmo não lembrava. Coisas que deveria estar em qualquer antologia mas foram esquecidas. Ele e Silas, juntos ou separados,contaram boa parte da história do Brasil.



Décio Antonio Carvalho nasceu em Santo Amaro da Purificacão, mesma cidade de Caetano Veloso, mas com meses foi para a mineira Juiz de Fora e, com um ano, já estava no Rio de Janeiro, no Morro de Santo Antônio, uma escala para o Morro de Mangueira, onde chegaria em 1915. Com 14 anos foi morar em Madureira, onde teve contato com blocos como o Vai Como Pode, a futura Portela, foi inevitável.
Mas pouco depois, fugindo da atenção excessiva do pai, foi morar na casa de parentes, novamente em Mangueira. Quando o cerco paterno apertou, fugiu e passou a viver de bicos, vendendo jornais e cocada no Largo da Carioca, e dormindo na rua. Depois conseguiu abrigo na casa de Manga, fundador do tradicional Recreio de Ramos e irmão de Armando Marçal, um dos professores da primeira escola de samba, a Estácio de Sá.
Sua primeira música, gravada por Almirante nos anos 1930, foi "Vem meu amor", feita sobre a melodia de uma valsa de Richard Strauss. Vendeu muito samba para os cantores da época, como era de praxe, até que voltou para Madureira e conheceu a escola Prazer da Serrinha, embrião da Império Serrano. Compositor de mão cheia, logo ganhou respeito na escola e o apelido. Mano era a alcunha dos mestres das escolas como Elói, da Serrinha, e Rubens e Edgar, da Estácio. O "da Viola" se deveu ao fato de ele tocar bandola na época. Nesta época, em 1955, após uma divergência na Portela, Antônio Caetano, um dos baluartes da azul-e-branco foi à Serrinha, onde tinha parentes, e sugeriu um enredo para o carnaval. Era "Conferência de São Francisco". Mano Décio topou fazer um samba de acordo com o enredo e procurou Silas. No dia do desfile, Alfredo, "dono" do Prazer da Serrinha, disse que a escola sairia com outro samba. A letra que cantava "Estabeleceu a paz universal/ Depois da guerra mundial" não saiu, mas foi o primeiro samba a narrar uma história.
Sua primeira música, gravada por Almirante nos anos 1930, foi "Vem meu amor", feita sobre a melodia de uma valsa de Richard Strauss. Vendeu muito samba para os cantores da época, como era de praxe, até que voltou para Madureira e conheceu a escola Prazer da Serrinha, embrião da Império Serrano. Compositor de mão cheia, logo ganhou respeito na escola e o apelido. Mano era a alcunha dos mestres das escolas como Elói, da Serrinha, e Rubens e Edgar, da Estácio. O "da Viola" se deveu ao fato de ele tocar bandola na época. Nesta época, em 1955, após uma divergência na Portela, Antônio Caetano, um dos baluartes da azul-e-branco foi à Serrinha, onde tinha parentes, e sugeriu um enredo para o carnaval. Era "Conferência de São Francisco". Mano Décio topou fazer um samba de acordo com o enredo e procurou Silas. No dia do desfile, Alfredo, "dono" do Prazer da Serrinha, disse que a escola sairia com outro samba. A letra que cantava "Estabeleceu a paz universal/ Depois da guerra mundial" não saiu, mas foi o primeiro samba a narrar uma história.
- Convivi com o Mano Décio quando cheguei no Império, na década de 60. Ele, Silas e o Jorginho Peçanha, que hoje é muito pouco lembrado, eram as pessoas mais importantes da escola. Silas era imperiano até debaixo d'água, enquanto o Mano Décio era um andarilho, um cidadão do mundo. Por isso, quando brigou no Império foi para a Portela. Quando voltou, procurou o Silas para fazer o que seria o último samba dos dois na escola - conta Rachel Valença. - Mano Décio era doce. Silas ficou como uma unanimidade, mas ele tem sambas maravilhosos feitos com outros parceiros como "Rio dos vice-reis".



Sérgio Cabral conta que o apelido que deu para Paulinho da Viola foi inspirado em Mano Décio.
- Eu tinha fascínio por ele e por aquele apelido. Ele fazia uns almoços ótimos, frequentados por cantores como o Roberto Silva e o Rizadinha, e personagens do Império como o mestre Fuleiro e o Sebastião Molequinho. Ele gravou tarde, mas bastante, quatro discos. Era forte na melodia, mas de vez em quando cometia imagens maravilhosas como: "A minha cruz é do tamanho do abandono que ser você deu".
Haroldo Costa, que dirigiu um show do sambista na Sala Funarte, lembra sua consciência política.
- Ele tinha esse discernimento. É bom lembrar sempre que o Império desfilou com "Heróis da liberdade" dois meses depois de decretado o AI-5.
(Fonte: João Pimentel - Jornal "O Globo")

quinta-feira, 16 de julho de 2009

CARNAVAL 2010 - SINOPSE DO ENREDO.

ENREDO: "JOÃO DAS RUAS DO RIO"



João das ruas do Rio.

Eu amo a rua. Este sentimento de natureza toda íntima não seria revelado por mim, se não julgasse que este amor absoluto e exagerado é partilhado por todos nós.

A rua, espaço por onde se anda e passeia. Ora, a rua é mais que isso, é um fator de vida das cidades. A rua tem alma!

Não há nada mais enternecedor que o princípio de uma rua.

No início capim, um braço a ligar duas artérias. Um dia cercam a sua beira, um lote de terreno, surgem os alicerces de uma casa. Depois outra e outra. Três ou quatro habitantes proclamam sua salubridade ou sossego.

O importante é que a rua é a causa fundamental da diversidade de tipos humanos. A rua é a civilização da estrada. Onde morre o grande caminho, começa a rua, por isso ela está para a grande cidade como a estrada está para o mundo.

A rua da Misericórdia foi a primeira rua do Rio. Dela partimos todos nós, nela passaram vice-reis malandros, os gananciosos, os escravos nus, os senhores em redes, os índios batidos, negros presos a ferros.

O primeiro balbucio da cidade foi um grito de misericórdia, um ai! Dela brotou a cidade, no antigo largo do Paço. Ela continuou pelos séculos...
Cada rua tem um estoque especial de expressões, ideias e gostos. As conversas variam, o amor varia, até o namoro é absolutamente diverso. Em Botafogo, à sombra das árvores do parque ou no grande portão, Julieta espera Romeu, elegante e solitária. Em Haddock Lobo, Julieta garruleia em bando pela calçada, e nas casas humildes da Cidade Nova Julieta, que trabalhou todo o dia, pensando nessa hora fugaz, pende à janela seu busto formoso.


O que se vê pelas ruas do Rio do João

Do cais, cortado de lanchas, de velas brancas, o desenho dos navios, das fortalezas. À beira desse cais, saveiros enormes esperavam a mercadoria, e em cima, formando um círculo ininterrupto, homens de braços nus saíam a correr dentro da casa, atiravam o saco no saveiro, davam a volta na disparada, tornavam a sair a galope com outro saco, sem cessar, contínuos como uma correia de uma grande máquina.

Eram sessenta, oitenta, cem, talvez duzentos, não os podia contar.

Pelos boulevares que vão dar no cais, a vida da cidade vibrava num rumor de apoteose, naquele trecho do mercado. Os vendedores ambulantes entram ali como por um terreno novo a conquistar.

O ratoeiro compra ratos. É um negociante, o entreposto entre as ratoeiras da cidade e a Diretoria de Saúde.Vai até o subúrbio tocando uma corneta(1). O vendedor de doces arria a caixa e entrega o braço a um moleque. Aquele pequeno é um marcador, faz tatuagens com três agulhas e um pote de tinta. Passa o vendedor de orações, colecionei essas súplicas bizarras. Há orações para santos que nem o papa conhece: S. Gurmim, boa para dor nos calos, e São Puiúna, infalível nas nevralgias. E até mesmo oração para o mar sagrado:

Mar sagrado, eu te venho salvar(2), a tua água te venho pedir para fortuna por Deus para minha casa levar; para que me dê ouro para guardar e prata para gastar, cobre para dar aos pobres.

Na esquina do teatro S. Pedro Arcanjo, um italiano vende livros e jornais. A História da princesa Magalona, Carlos Magno e Testamento dos bichos são os mais vendidos.

Não há cidade no mundo onde haja mais gente célebre que a cidade de S. Sebastião. Vamos ver os pintores, não os Vitor Meirelles(3) e Castagnettos(4) , mas os pintores de rua, heróis da tabuleta(5), artistas da arte prática. Vamos a pequenas amostras - Os macacos trepados em pipas de parati(6), mulheres com molhos de trigo nas mãos, apainelando(7) padarias, paisagens que se repetem com a visão de quem pinta: há o Pão de Açúcar redondo como uma bola, no Estácio, em feitio de valise, no Andaraí, o mesmo Pão comprido e fino em São Cristóvão. Paisagens de batalhas, pôr do sol e mares revoltos. Paisagens de botequins - tabuletas. Foi um poeta que considerou as tabuletas os brasões da rua.

A origem dos títulos é sempre curiosa. Na rua Senhor dos Passos, "Depósito de aves de penas" e na rua Sete "grande sortimento de frutas verdes e secas". Na rua da Constituição, uma casa de bilhetes intitulada "Casa Idealista", porque quem compra bilhetes vive no mundo da lua, e há uma casa de coroas, "O Lírio Impermeável" e outra, "Vulcão das 49 Flores".

Apesar dos gramofones e da intensa proliferação dos pianos nos hotéis, nos botequins, nas lojas de calçados, os músicos ambulantes foram aparecendo novamente nos cafés, tascas, baiúcas, e de novo pelas ruas os realejos, os violinos, as gaitas recomeçaram seu triunfo e lobriguei outro dia ainda um bicho lendário por mim julgado tão desaparecido quanto o megatério(8): o homem dos sete instrumentos.

Esta cidade é essencialmente musical; era impossível passar sem os músicos ambulantes. E dança-se muito também.

Na rua Frei Caneca, na de Santana, em São Clemente e S. Cristóvão tem reisados, contei numa noite mais de 40. Um dos grupos carnavalescos chama-se Rei de Ouros.

Tu tu tu, quem bate à porta
Menina, vai ver quem é
É o triunfo Rei de Ouros
Com sua pastora ao pé

Em plena rua do Ouvidor, não se podia andar. Era provável que do largo de São Francisco até a rua Direita dançassem vinte cordões carnavalescos, rufassem 200 tambores, zabumbassem 100 zabumbas, gritassem 50 mil pessoas. Era a loucura, o pandemônio do barulho e da sandice. Os cordões são os núcleos irredutíveis da folia carioca, brotam com um fulgor mais vivo e são antes de tudo bem do povo, bem da terra, bem da alma encantadora e bárbara do Rio.


Hoje ainda nas ruas do Rio do João

O tempo passou, surgiram novas ruas cheias de arranha-céus, novos bairros, novos transportes, mas a rua ferve de gente e... de ambulantes.

São pipoqueiros, tapioqueiros, vendedores de acarajé, milho verde, olha a pamonha! O vassoureiro equilibra todo tipo de vassouras e espanadores, pastéis, churros, empadas, a caminhonete vende cachorro-quente com as coberturas mais inusitadas de petit-pois e maionese, panos de chão clareados, burro-sem-rabo com pilhas de sacos de papel e jornal, e latinha de cerveja amassada, nas esquinas flores e plantas para todos os gostos, óculos de grau se misturam a colares de retalhos, bijuterias e relógios - só fica sem saber das horas quem quiser! Carregadores para celulares, protetores para o sol, balas de todo tipo e as frutas da estação, em oferta especial.

Os flanelinhas guardam as vagas, o garoto insiste em lavar os vidros, um cantor vende seus próprios CDs, e nesse circo armado nas ruas, os malabaristas fazem suas demonstrações de equilíbrio e agilidade, entre um sinal e outro.

Amo as ruas do Rio, tal como João do Rio, do Rio de Janeiro, a casa de todos nós!!!!

Rosa Magalhães
Junho 2009


(1) Por ocasião da campanha de saneamento do Rio de Janeiro, no início do século XX, a Diretoria de Saúde Pública, preocupada em exterminar os ratos, transmissores da peste bubônica, remunerava cada rato morto que lhe fosse apresentado. Surgiu daí a figura do comprador de ratos, que percorria a cidade com uma corneta para chamar a atenção de quem os tivesse para vender.
(2) Aqui no sentido de dar salvas, saudar.
(3) Vitor Meirelles foi um grande pintor brasileiro (1832-1903), autor do quadro Primeira Missa no Brasil.
(4) Giovanni Castagnetto (1862-1900), pintor italiano radicado no Brasil, destacou-se por pintar paisagens marinhas.
(5) Letreiro, anúncio.
(6) Sinônimo de cachaça.
(7) Enfeitando os painéis.
(8) Animal pré-histórico, contemporâneo dos dinossauros.


Bibliografia consultada:

João do Rio. A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro: H. Garnier Livreiro-Editor, 1910.
Magalhães Júnior, Raymundo. A vida vertiginosa de João do Rio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
João do Rio. Os melhores contos de João do Rio. Seleção de Helena Parente Cunha. S. Paulo: Global, 1990.

sábado, 11 de julho de 2009

Relíquia Imperiana garimpada em sebo.



Amigos imperianos, hoje ganhei o meu dia. Encontrei uma raridade imperiana garimpando um sebo de discos antigos. O LP "Samba, oração do morro, com a Escola de Samba Império Serrano" foi produzido pela antiga gravadora Copacabana na década de 60.



Vejam que capa maravilhosa, com a porta-bandeira segurando nosso estandarte do Carnaval de 1961.



A contra-capa tem um belo texto de Sérgio Cabral falando sobre a Império Serrano.